A Cividade de Terroso, classificada como Imóvel de Interesse Público, é um dos mais notáveis povoados fortificados da Idade do Ferro no noroeste peninsular. Localizada na freguesia de Terroso, concelho da Póvoa de Varzim, ergue-se a 153 metros de altitude, dominando visualmente a faixa costeira e o interior circundante. A sua ocupação prolongou‑se desde o Bronze Final (c. 1000–800 a.C.) até ao período da Romanização (século III d.C.), deixando um espólio arqueológico que documenta todas as fases da sua evolução.
Durante a Idade do Ferro, Terroso integrou a vasta rede de povoados fortificados associados às comunidades castrejas, culturalmente próximas dos povos celtas da Europa atlântica. Os romanos designavam estes grupos como Callaici/Gallaeci, reconhecendo neles uma sociedade guerreira, hierarquizada e profundamente ligada ao território.
A economia castreja combinava:
Pastorícia transumante e criação de gado
Agricultura cerealífera em socalcos
Metalurgia avançada, sobretudo do ferro
Cerâmica manual decorada com motivos geométricos
A organização social baseava‑se em clãs familiares e lideranças guerreiras, refletidas na arquitetura e na cultura material.
A Cividade de Terroso apresenta um dos melhores exemplos de urbanismo castrejo:
Três linhas de muralhas concêntricas, construídas em pedra seca
Casas circulares ou sub‑circulares, agrupadas em núcleos familiares
Pátios lajeados e arruamentos estruturados
Plataforma central com funções residenciais e comunitárias
Este modelo defensivo e orgânico é característico dos castros do Noroeste, revelando uma sociedade que valorizava a proteção coletiva e o prestígio militar.
Embora sem templos monumentais, os vestígios apontam para práticas espirituais ligadas:
À natureza (fontes, montes, penedos)
Aos antepassados
A rituais comunitários e guerreiros
Objetos votivos, amuletos e adornos com simbologia protetora reforçam a ligação a crenças de matriz celta.
A presença romana intensificou‑se a partir do século II a.C., culminando na reorganização do território sob Augusto. Em Terroso, a romanização manifestou‑se através de:
Introdução de casas retangulares e ruas mais regulares
Maior intensificação agrícola e integração em redes comerciais mediterrânicas
Circulação de moedas, cerâmicas finas e objetos de metalurgia romana
Adoção gradual de cultos romanos e práticas funerárias latinas
O povoado foi sendo abandonado ao longo do século I d.C., acompanhando a tendência de deslocação para novos centros urbanos em planície, como a provável Civitas Aquilensis.
As primeiras escavações ocorreram no início do século XX, conduzidas por Rocha Peixoto, que reconheceu a importância excecional do sítio. A partir de 1980, novos trabalhos permitiram:
Definir a cronologia completa da ocupação
Identificar estruturas habitacionais e defensivas
Recolher espólio que documenta a transição entre o mundo castrejo e o romano
O Núcleo Interpretativo da Cividade de Terroso, inaugurado em 2004, expõe parte dos achados, enquanto o Museu Municipal da Póvoa de Varzim conserva as peças mais relevantes.
Estas três designações referem‑se a povoados fortificados da Idade do Ferro, mas não são sinónimos perfeitos.
Termo mais genérico
Refere‑se a qualquer povoado fortificado proto‑histórico do Noroeste
Pode variar muito em tamanho e complexidade
Designação usada sobretudo no Norte de Portugal
Aplica‑se a castros de grande dimensão, com forte monumentalidade e papel central no território
Ex.: Cividade de Terroso, Cividade de Bagunte
Termo erudito, derivado do latim civitas
Usado para castros muito desenvolvidos, com urbanismo complexo e longa ocupação
Ex.: Citânia de Briteiros, Citânia de Sanfins
Em resumo: Todo o castro pode ser um povoado fortificado, mas apenas os maiores e mais estruturados são chamados cividades ou citânias.
A Cividade de Terroso é um dos mais importantes testemunhos da cultura castreja e celta do Noroeste Peninsular, revelando uma sociedade sofisticada, guerreira e profundamente ligada ao território. A sua evolução, desde o Bronze Final até à romanização, faz deste sítio um laboratório privilegiado para compreender a transição entre o mundo indígena e o romano, bem como a identidade dos povos que moldaram o Norte de Portugal.
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