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Cividade de Terroso

 

A Cividade de Terroso: centro castrejo e herança celta do Noroeste Peninsular

A Cividade de Terroso, classificada como Imóvel de Interesse Público, é um dos mais notáveis povoados fortificados da Idade do Ferro no noroeste peninsular. Localizada na freguesia de Terroso, concelho da Póvoa de Varzim, ergue-se a 153 metros de altitude, dominando visualmente a faixa costeira e o interior circundante. A sua ocupação prolongou‑se desde o Bronze Final (c. 1000–800 a.C.) até ao período da Romanização (século III d.C.), deixando um espólio arqueológico que documenta todas as fases da sua evolução.

✧ A Cividade na Idade do Ferro: o mundo castrejo e celta

Comunidades Proto‑Celtas e Celtas

Durante a Idade do Ferro, Terroso integrou a vasta rede de povoados fortificados associados às comunidades castrejas, culturalmente próximas dos povos celtas da Europa atlântica. Os romanos designavam estes grupos como Callaici/Gallaeci, reconhecendo neles uma sociedade guerreira, hierarquizada e profundamente ligada ao território.

Economia e vida quotidiana

A economia castreja combinava:

  • Pastorícia transumante e criação de gado

  • Agricultura cerealífera em socalcos

  • Metalurgia avançada, sobretudo do ferro

  • Cerâmica manual decorada com motivos geométricos

A organização social baseava‑se em clãs familiares e lideranças guerreiras, refletidas na arquitetura e na cultura material.

Arquitetura castreja

A Cividade de Terroso apresenta um dos melhores exemplos de urbanismo castrejo:

  • Três linhas de muralhas concêntricas, construídas em pedra seca

  • Casas circulares ou sub‑circulares, agrupadas em núcleos familiares

  • Pátios lajeados e arruamentos estruturados

  • Plataforma central com funções residenciais e comunitárias

Este modelo defensivo e orgânico é característico dos castros do Noroeste, revelando uma sociedade que valorizava a proteção coletiva e o prestígio militar.

Religião e cosmologia celta

Embora sem templos monumentais, os vestígios apontam para práticas espirituais ligadas:

  • À natureza (fontes, montes, penedos)

  • Aos antepassados

  • A rituais comunitários e guerreiros

Objetos votivos, amuletos e adornos com simbologia protetora reforçam a ligação a crenças de matriz celta.

✧ Romanização e transformação do povoado

A presença romana intensificou‑se a partir do século II a.C., culminando na reorganização do território sob Augusto. Em Terroso, a romanização manifestou‑se através de:

  • Introdução de casas retangulares e ruas mais regulares

  • Maior intensificação agrícola e integração em redes comerciais mediterrânicas

  • Circulação de moedas, cerâmicas finas e objetos de metalurgia romana

  • Adoção gradual de cultos romanos e práticas funerárias latinas

O povoado foi sendo abandonado ao longo do século I d.C., acompanhando a tendência de deslocação para novos centros urbanos em planície, como a provável Civitas Aquilensis.

✧ Investigação Arqueológica

As primeiras escavações ocorreram no início do século XX, conduzidas por Rocha Peixoto, que reconheceu a importância excecional do sítio. A partir de 1980, novos trabalhos permitiram:

  • Definir a cronologia completa da ocupação

  • Identificar estruturas habitacionais e defensivas

  • Recolher espólio que documenta a transição entre o mundo castrejo e o romano

O Núcleo Interpretativo da Cividade de Terroso, inaugurado em 2004, expõe parte dos achados, enquanto o Museu Municipal da Póvoa de Varzim conserva as peças mais relevantes.

✧ Diferença entre cividade, citânia e castro

Estas três designações referem‑se a povoados fortificados da Idade do Ferro, mas não são sinónimos perfeitos.

Castro

  • Termo mais genérico

  • Refere‑se a qualquer povoado fortificado proto‑histórico do Noroeste

  • Pode variar muito em tamanho e complexidade

Cividade

  • Designação usada sobretudo no Norte de Portugal

  • Aplica‑se a castros de grande dimensão, com forte monumentalidade e papel central no território

  • Ex.: Cividade de Terroso, Cividade de Bagunte

Citânia

  • Termo erudito, derivado do latim civitas

  • Usado para castros muito desenvolvidos, com urbanismo complexo e longa ocupação

  • Ex.: Citânia de Briteiros, Citânia de Sanfins

Em resumo: Todo o castro pode ser um povoado fortificado, mas apenas os maiores e mais estruturados são chamados cividades ou citânias.


A Cividade de Terroso é um dos mais importantes testemunhos da cultura castreja e celta do Noroeste Peninsular, revelando uma sociedade sofisticada, guerreira e profundamente ligada ao território. A sua evolução, desde o Bronze Final até à romanização, faz deste sítio um laboratório privilegiado para compreender a transição entre o mundo indígena e o romano, bem como a identidade dos povos que moldaram o Norte de Portugal.


  • Categoria:Património
  • Morada:Rua da Cividade
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